quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Não morrerei se me abandonares. Antes pelo contrário.



Não importa como entraste na minha vida. Pode ter sido na infância. Talvez eu tenha pronunciado o teu nome antes de muitas das palavras que eu viria a conhecer. Talvez tenhamos nos conhecido na fila do recitativo, nos domingos na igreja. Pode ter sido na escola, nos bancos de trás ou da frente, a falar mal da professora. Pode ser que tenhamos trocado aquele lápis de cor, “o cor da pele”, que não tinha na minha caixa de seis cores (tu sabe que 12 cores era coisa para os abençoados, e se tu tinha 24 cores, definitivamente não estudava na mesma escola que eu). Talvez tenhamos sido vizinhos ou brincávamos na mesma rua. Penso que pode ter sido na cantina, quando a gente tinha o direito, uma vez por semana, de não precisar comer a merenda e então comer um salgado pelo preço de uma passagem de ônibus. Talvez tenhamos nos conhecido na sorveteria, afinal, eu passei lá a maior parte da minha infância. Pode ser que tenhamos nos conhecido depois que eu casei. Foi cedo.
Pode ser que tenha sido no escritório, a aprender a vida dura de quem tem que abrir mão de 10 horas do dia, a fazer qualquer coisa para ganhar um salário, sobreviver a coisa toda que nos permeia até hoje. Podes ter sido meu médico. Podes ter sido o perito daquele processo que eu precisei de ajuda. Aliás, posso até ter sido tua advogada, em algum momento. Tu podes ter sido uma das pessoas que eu conheci no Rally da Mitsubishi! Podes me ter sido apresentada pelo namorado da amiga de fulana, numa festa chata. Ou na festa mais legal de todas. Posso ter tido a sorte de ter estudado contigo por 5 anos, ou menos, na faculdade que decidimos fazer e esta é a nossa conexão. Pode ter sido num bar, no dentista, na feira, na Praça Silvio Romero. Pode ter sido na reunião da escola onde estudam os nossos filhos. Pode ter sido em outro país. Deve ter sido em Portugal, aliás, é bem provável, porque Portugal me amou e eu amei todos os que lá conheci, inevitavelmente. Pode ter sido no banheiro da balada, ou mais precisamente, no fumódromo. Pode ter sido um flerte, que virou amizade. Pode ter sido no Tinder, né não?! Então, não sei como passei a chamar-te de amigo. Pode ter sido instantâneo. Pode ter sido construído lentamente. Pode sido um único encontro. Pode ser que tenhamos nos visto ontem. Pode ter sido coisa de deuses. Ou de demônios. Podes me ter tirado o sono, podes ter-me dado colo. 
O fato é que me ensinaste que as pessoas que passam, as pessoas que ficam, as pessoas que vem e as pessoas que vão, trazem em si o dom de fazer a vida do outro mais feliz, nem que seja por um momento, e que vai ecoar pela eternidade. Saiba que esta não é uma lista. É uma espécie de retrospectiva, para agradecer-te. Neste momento (e sempre), tua vida me ensinou a cuidar melhor da minha, para te fazer tão bem quanto me fizeste. Ao longo da minha vida, talvez tenha sido eu a abandonar-te. Nesta altura, o que importa de quem foi a culpa? Quero dizer que fazes parte do que sou. Sou parte do que és. Somos todos parte de alguém em algum momento, para depois não ser mais. Sigamos amando e querendo fazer parte. Ainda que tenhamos que partir um dia. 
Escrevo para dizer que sou grata pelo que me ensinaste. Peço que perdoe-me se fui eu a abandonar-te. Perdoo-te também. Sigamos querendo e sendo amigos melhores, ou melhores amigos. És parte ainda do que me faz forte (para parafrasear Legião Urbana), mas nem um pouquinho infeliz.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Braços-de-ferro


Falo. Escutas falando.
Calo. Me apertas o calo com teu silêncio.
É um jogo. Um embate. Um combate. 
Mares revoltos, silhuetas recolhidas em oposto.
Engulo o desgosto. Penso no teu gosto. 
Arranca-me os braços.
Impeça-me de abraços.
Arranca-me os olhos.
Epilético balé de almas
Sua química, meu feitiço,
Sua física, meu espírito.
Indissociáveis. 
Insolúveis.