terça-feira, 19 de abril de 2016

Mistério de te amar

Ao ver-te (a alma) pela primeira vez,
O mundo inteiro parou.
E eu, como que diante do mar
Rendi-me, inerte, e esqueci as perguntas.
Ao ver-me em ti pela primeira vez
Toda a vida encheu-se de graça
De respiráveis ares,
Como se dantes não houvesse fôlego suficiente
Ao ver-te em mim pela primeira vez
Foi como se uma explosão se antecedesse,
Pra nunca mais acontecer
Suspensa, a aguardar o tempo de esquecer.
Estava eu diante do mistério
Do mistério de amar
Do mistério de viver
Do mistério de morrer
Foram vidas inteiras roladas,
Como lágrimas em vitrais
Tensas e imóveis.
Que é feito da vida, dessa, tão frágil e efêmera de agora,
Diante do gosto da eternidade?

Ironia

É ironia, mas duvido que alguém se ria.

Começa com a loiça na pia, e a constatação de que tudo aquilo durará mais que eu. 
Talvez seja porque naquele momento, trato com zelo as panelas, preocupada com o Teflon, para que não lhes grude nada. 
Mas, quem se preocupa que não me grude à pele o efeito do desgosto?
O cristal das taças, que me é tão caro, precisa ser acarinhado: - Deus a livre de um deslize meu! 
E quem me livra dos deslizes teus?
Uma porção de cuidado e lá estão os talheres, brilhantes, organizados, a seus lugares; ao passo que eu não consigo sequer preservar o brilho do seu olhar.

Vontade de quebrar tudo. Inclusive esse desespero.

Apago, afago, trago


Apagadas sejam tuas dúvidas acerca de mim.
Agora que surgem à tona, essas minhas palavras,
Essas todas minhas palavras, que não podem ser ditas
Nem escritas, nem vistas, porque sequer existem...
O fato é que eu não sei:
Se não posso falar, o que hei de fazer?
Que malfadada sina é essa de não poder
Expelir, girar, gerir, gritar e ainda assim, sorrir?
Tão frágil quanto esse afago,
Esse adágio, esse olhar, esse encanto
É de loucos que eu te ame tanto,
E nem saiba por onde começar a esquecer.
Trago acesso um cigarro,
Achando que o mundo foi feito pra nós:
Outra ilusão, e nas cinzas ainda há fogo,
Louco, em esperas, rapidamente apagadas.