quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Eu-não-espelho


Quanta ilusão guardam os que amam! Ilusão de eternidades, de serenidades, de certezas.
Ilusão de desejos fáceis, de verbos, de fatos.
Ilusão de ver-se no outro. Ilusão de achar-se no outro.
Esquecem, portanto, que amor é explosão, é revolta, é o medo do não haver.
E havendo tamanho sentimento, até onde se pode prever?
Amar é expor, expor-se: à recompensa ou ao castigo.
Recompensado, deleitar-se. Castigado, resignar-se.
O outro, no amor, não é bom, não é ruim, não é feio, não é belo, não é erro, não é acerto. É só outro.
Sendo outro, é outro ser. É outra ansiedade, outra dor, outra flor.
O outro é o componente fundamental do amor.
A resistência precisa do oposto.
O amor precisa do outro.
Não há amor sem amar. Não há amor sem dor.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Contágio

Faca de dois gumes. 
Isso é o amor. 
É como ver a morte do mundo à sua volta, e fazer-lhe o enterro... Do mundo todo!
Porque não vale a pena estar em outra companhia senão dele, do amor. 
O amor não nos deixa escolha, senão querê-lo, desejá-lo, caçá-lo.
E nessa jornada, todo o resto está a morrer... Quando acaba, caminhamos, corremos, fugimos para longe do enterro, do luto, mas ainda assim estamos a caçá-lo
Estamos a viver a morte de tudo, de cada paisagem vista antes dele, de cada cheiro que guardamos de outros, de cada lembrança confortadora de outrora, pra ver entrar em nós a figura desse amor
O amor quer ser único, indelével, ímpar.
E não há escolha senão aceitá-lo, mesmo nos detalhes desonrosos: possessão, invasão, força... e não haverá para onde fugir quando ele habitar até o mais íntimo de todos os nossos pensamentos! 
O amor é uma doença, quando julgamos nele ver a nossa cura. 
Pena que seja doença pelo qual vale a pena morrer.

Eu era outro lugar

Enganei-te vezes sem conta no tempo que escorreram duas lágrimas.
A perfeita solidão deste-me, porque enquanto sonhava contigo sabia que não estavas comigo.
Que sonho. Que fatos!!!
Percebes que deixei de amar todo o resto do mundo porque amei-te em infinitos? 
Empírico e metafísico nisso que chamávamos tempo, 
Guirlandas inúteis, estratagemas fúteis, e nisso tudo, tu. 
Teu peito, a ensejar deslizes (dos outros), 
já eu, permaneço firme no propósito de enganar-me
Escondo-te de todos: em meu pensamento és propriedade, que alugo, por ora.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Mistério de te amar

Ao ver-te (a alma) pela primeira vez,
O mundo inteiro parou.
E eu, como que diante do mar
Rendi-me, inerte, e esqueci as perguntas.
Ao ver-me em ti pela primeira vez
Toda a vida encheu-se de graça
De respiráveis ares,
Como se dantes não houvesse fôlego suficiente
Ao ver-te em mim pela primeira vez
Foi como se uma explosão se antecedesse,
Pra nunca mais acontecer
Suspensa, a aguardar o tempo de esquecer.
Estava eu diante do mistério
Do mistério de amar
Do mistério de viver
Do mistério de morrer
Foram vidas inteiras roladas,
Como lágrimas em vitrais
Tensas e imóveis.
Que é feito da vida, dessa, tão frágil e efêmera de agora,
Diante do gosto da eternidade?

Ironia

É ironia, mas duvido que alguém se ria.

Começa com a loiça na pia, e a constatação de que tudo aquilo durará mais que eu. 
Talvez seja porque naquele momento, trato com zelo as panelas, preocupada com o Teflon, para que não lhes grude nada. 
Mas, quem se preocupa que não me grude à pele o efeito do desgosto?
O cristal das taças, que me é tão caro, precisa ser acarinhado: - Deus a livre de um deslize meu! 
E quem me livra dos deslizes teus?
Uma porção de cuidado e lá estão os talheres, brilhantes, organizados, a seus lugares; ao passo que eu não consigo sequer preservar o brilho do seu olhar.

Vontade de quebrar tudo. Inclusive esse desespero.

Apago, afago, trago


Apagadas sejam tuas dúvidas acerca de mim.
Agora que surgem à tona, essas minhas palavras,
Essas todas minhas palavras, que não podem ser ditas
Nem escritas, nem vistas, porque sequer existem...
O fato é que eu não sei:
Se não posso falar, o que hei de fazer?
Que malfadada sina é essa de não poder
Expelir, girar, gerir, gritar e ainda assim, sorrir?
Tão frágil quanto esse afago,
Esse adágio, esse olhar, esse encanto
É de loucos que eu te ame tanto,
E nem saiba por onde começar a esquecer.
Trago acesso um cigarro,
Achando que o mundo foi feito pra nós:
Outra ilusão, e nas cinzas ainda há fogo,
Louco, em esperas, rapidamente apagadas.