domingo, 30 de agosto de 2015

Ode às coisas que morrem


Gentes.
Há quem morra, há quem deixa de existir, há quem deixa de sentir. Deixar de ouvir também é um meio de morrer. 
Bicho.
Não percebo bicho morrendo, porque não entendo bicho nascer. 
Flor.
Morre mesmo. Na janela, na encosta, na estrada, no vaso. E vive muito pouco.
Lembrança.
Lembrança é diferente de memória, memória morre dentro, lembrança morre fora de nós, deixa de vir, deixa de aparecer, e pronto, morreu.
Esperança.
Morre de cansada. Se hospeda em nós, sempre a espera de outrem, de coisas que nunca chegam, e morre também.
Ilusão.
Essa morre todo dia. No fundo já nasce morta, fazemos-lhe o parto da coisa, que não há de respirar suficiente.
Felicidade.
Não confie, morre also. Em dias invernais, em infernos astrais, em músicas tristes.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Branco Breu

Quem és?
Populosa solidão
Ardilosa inocência
Doce fel, 
Plácido furacão!
Deixa-me entrar?
Tortuosa geometria, 
Fé pagã
Deliciosa dor, 
Triste alegria!
Permita-me ser?
Vívida morte
Coloridas cinzas
Vã sabedoria
Desgraçada sorte!
Vida afora,
Noite adentro
Ledo engano!
Fui eu.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Armada até as asas!

Faturas de conflitos só se pagam em espécie

Espécie de dor

Espécie de desastre para justificar 

O meu caos.

Do muito que não sei, 

Sigo suportando essas contradições

Desencantada.

Do pouco que sei, 

Nem é tão grave assim

Viver no reino das ideias

Revivendo ideais.

Coragem em mutação

Medo em transição

Ciclos em perfeita confusão.

Saídas de emergência não comportam adeus,

Saí.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Pianosofia

Me musicio, em devaneio e insanidades, afim de dançar com deuses, E vejo: música e meus demônios em embate,
Fagulhas, farpas, ilusões, amores, culpa, sina!
Ouvir que acalma, na horda da insanidade bruta, brota a consciência, uma ciencia de ser alma, e não corpo!
Desperta, para a insensatez das medidas, preceitos e preconceitos,
Eleva, de leve transporta para o entender de viagens, sonhos delírios,
Questiona: em que tempo estaria o tempo que te mede, ó vida?
Cordas, arcos, tempo, Iluminando o espaço,
Sílabas, letras, vozes, em vezes alternadas, magicamente engendradas, estrategicamente posicionadas, tecnicamente osquestradas para levar ao longe,
Bordear infinitos! Caminhar em nuvens!
Encontrar estrelas! E não só: são elas capazes de iluminar o escuro tanto quanto suficiente, para driblar os olhos, a enxergar o profundo, o soberano cinza da queda livre! Torturando encantos! Exclamando dores! Renegando amores!
Ela, tão soberana criação! Tão superior criatura! Fez criador e causa abraçarem-se como se fossem dois.
A música, tão ente, tão gente, tão entre tudo, tão sobre nós como mágico manto de salvação...
Aos que sob ela se pôe, dá afeto, frio, afago, angústia, sonho, pesadelo, coragem e terror, saber e esquecer, amor e mar, calor e dor.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Caríssima


Tire o seu dedo da minha cara, 
Ou com a sutileza da minha foice
Eu tiro os dedos da sua mão.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Ou sinta os dentes da minha boca
Que eu não sou de ferro, não.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Já sou feita de gana e grito
E não estou aqui em vão.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Quem me prova em geral se engasga 
Já que minha poesia não é feita de pão.

Tire o seu dedo da minha cara
E não pose como se eu precise
De ser feliz com sua permissão.

Tire o seu dedo da minha cara.
Ou como sempre, te ignoro
E me levo, minha cara, pra bem longe do teu senão.