segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Which what?

Não me apetece fofoca, vida alheia. 
Ocupada que estou, burlando aquele destino descrito em cartas gastas 
Ocupada que estou burlando a vida de outrora, 
Ocupada que estou, limpando a casa que já não é minha 
Ocupada que estou, reunindo forças para aguar plantas que vão morrer quando eu me for 
Entretida como nunca maldizendo o mundo,  
Estupefata em ver como falta de dinheiro vence-me sem delongas, 
Achas que me importa a comunicação com aqueles? 
Achas que faz-me falta? 
Quero avisar, se calhar morri pra tudo isso. 
Não, não me apetece tecnologias. 
Se calhar tudo reduzido a silêncio, desilusões e ausências. 
Ocupada que estou em dar atenção as malas 
Ocupada que estou renovando desgostos,  
Levo os olhos a tela numa indiferença rápida 
o me apetece burlar coisa nenhuma, 
Nem a isto, nem aquilo. 
Ocupada que estou murmurando desastres,  
A boca verdadeira sibila, enquanto a falsa sorri. 
(não podes comigo, avisei-te) 
Asseguro-te apenas a ilusão de que me iludo. 
Ocupada que estou dando conta de que realmente não sei das coisas, 
Ocupada que estou juntando fatos sem a menor relevância para o futuro,  
Ocupada que estou fingindo intimidades, 
Ocupada que estou procurando parábolas que justifiquem a descrença; 
Ocupada que estou. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Polipolar

Ouvi essa e sorri:
“Não és bipolar, és polipolar!”
Pois devo ser.
Não baste que eu cante, eu tenho que cantar à lá Tetê Espíndola,
No carro, no meio da rua, no supermercado, 
A fazer vergonhas alheias.
Não basta que eu sofra, eu tenho que sofrer por gente que eu nem conheço, 
E por fatos que eu não vou mudar,  
Quero pintar o mundo inteiro do meu colorido louco, 
E depois pintar de cinza, pra chorar copiosamente o leite derramado!
Não basta que eu me apaixone, 
Eu tenho que me espatifar de desilusão, 
Não basta que eu caia, tem que ser bem do alto,
Não basta que eu tenha memória, eu preciso mesmo é morrer de saudade!!!
Às vezes me sinto cansada de ser literal 
E me envolvo em mistérios que nem eu consigo desvendar
Gosto de me encontrar em corredores, 
Como completa desconhecida de mim
Não faço questão de me conhecer profundamente, 
Tampouco de decorar meus discursos, 
Não tenho nenhum compromisso com meus próprios planos.
É sempre hora de sair a correr, sair a beber, sair a viver, e voltar a morrer de amores.
Tanto quanto mais improvável possível.
Mudar de casa, de cabelo, de roupa, de estilo
Mudar o sotaque, mudar o sentido, e depois de continente.
Em sonho ou na vida real.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Era de ser

Não era hora, nem lugar para o amor;
Pelo menos não para os incautos.
Não era um ponto de espera, nem um porto seguro.
Era um ponto de passagens, paisagem para apreciar em outras viagens...
E lá estávamos nós, de prontidão, para a aventura que é viver plenamente
De peito aberto e mente insana, como sempre.
Sem compromisso com o relógio dos outros, fomos enganando as horas, do nosso próprio jeito de perder tempo
Não sabíamos bem o que queríamos dos nós, nem dos laços, e na sede daquele abraço, tudo ficou forte demais pra conseguirmos desatar.
Um fio invisível esteve a costurar-nos, laçando sonhos, atando espasmos, construindo um manto, que nos cobriu de encantos...
No tempo que se fez presente, dádivas, hojes infinitos, agoras eternos
Então vimos que era amor. Sem nomes, residências ou domicílios, fomos ficando, como filhos, aprendendo a criar, crias próprias, palavras a deslizar dentro de um peito novo, prontos para não voltar.
Na última solidão, demos as mãos, e embarcamos na nossa viagem de viver a definição do nosso indefinidamente mundo perfeito.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Pandora

Precipício, pressinto-te.
Pressiono a ferida aberta, ou a porta. 
Pedaços, pele, pano.
Pungência. 
Por quê? Para quê? Para onde?
Pressa. Predisposição para pagar pecados.
Pena. Pernas. Perigo:
Próximo dessas perdas, pedras.
Pálida perfídia,
Perversa paciência.
Parece paz, porra!
Padeço, placidamente e pareço pequena... 
Paraísos de profissionais,
Procissões rumo a purgatórios.
Perco-me em pedaços.
Pula essa parte.
Ponto.


domingo, 30 de agosto de 2015

Ode às coisas que morrem


Gentes.
Há quem morra, há quem deixa de existir, há quem deixa de sentir. Deixar de ouvir também é um meio de morrer. 
Bicho.
Não percebo bicho morrendo, porque não entendo bicho nascer. 
Flor.
Morre mesmo. Na janela, na encosta, na estrada, no vaso. E vive muito pouco.
Lembrança.
Lembrança é diferente de memória, memória morre dentro, lembrança morre fora de nós, deixa de vir, deixa de aparecer, e pronto, morreu.
Esperança.
Morre de cansada. Se hospeda em nós, sempre a espera de outrem, de coisas que nunca chegam, e morre também.
Ilusão.
Essa morre todo dia. No fundo já nasce morta, fazemos-lhe o parto da coisa, que não há de respirar suficiente.
Felicidade.
Não confie, morre also. Em dias invernais, em infernos astrais, em músicas tristes.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Branco Breu

Quem és?
Populosa solidão
Ardilosa inocência
Doce fel, 
Plácido furacão!
Deixa-me entrar?
Tortuosa geometria, 
Fé pagã
Deliciosa dor, 
Triste alegria!
Permita-me ser?
Vívida morte
Coloridas cinzas
Vã sabedoria
Desgraçada sorte!
Vida afora,
Noite adentro
Ledo engano!
Fui eu.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Armada até as asas!

Faturas de conflitos só se pagam em espécie

Espécie de dor

Espécie de desastre para justificar 

O meu caos.

Do muito que não sei, 

Sigo suportando essas contradições

Desencantada.

Do pouco que sei, 

Nem é tão grave assim

Viver no reino das ideias

Revivendo ideais.

Coragem em mutação

Medo em transição

Ciclos em perfeita confusão.

Saídas de emergência não comportam adeus,

Saí.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Pianosofia

Me musicio, em devaneio e insanidades, afim de dançar com deuses, E vejo: música e meus demônios em embate,
Fagulhas, farpas, ilusões, amores, culpa, sina!
Ouvir que acalma, na horda da insanidade bruta, brota a consciência, uma ciencia de ser alma, e não corpo!
Desperta, para a insensatez das medidas, preceitos e preconceitos,
Eleva, de leve transporta para o entender de viagens, sonhos delírios,
Questiona: em que tempo estaria o tempo que te mede, ó vida?
Cordas, arcos, tempo, Iluminando o espaço,
Sílabas, letras, vozes, em vezes alternadas, magicamente engendradas, estrategicamente posicionadas, tecnicamente osquestradas para levar ao longe,
Bordear infinitos! Caminhar em nuvens!
Encontrar estrelas! E não só: são elas capazes de iluminar o escuro tanto quanto suficiente, para driblar os olhos, a enxergar o profundo, o soberano cinza da queda livre! Torturando encantos! Exclamando dores! Renegando amores!
Ela, tão soberana criação! Tão superior criatura! Fez criador e causa abraçarem-se como se fossem dois.
A música, tão ente, tão gente, tão entre tudo, tão sobre nós como mágico manto de salvação...
Aos que sob ela se pôe, dá afeto, frio, afago, angústia, sonho, pesadelo, coragem e terror, saber e esquecer, amor e mar, calor e dor.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Caríssima


Tire o seu dedo da minha cara, 
Ou com a sutileza da minha foice
Eu tiro os dedos da sua mão.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Ou sinta os dentes da minha boca
Que eu não sou de ferro, não.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Já sou feita de gana e grito
E não estou aqui em vão.

Tire o seu dedo da minha cara, 
Quem me prova em geral se engasga 
Já que minha poesia não é feita de pão.

Tire o seu dedo da minha cara
E não pose como se eu precise
De ser feliz com sua permissão.

Tire o seu dedo da minha cara.
Ou como sempre, te ignoro
E me levo, minha cara, pra bem longe do teu senão.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Livra-te de mim!



Livra-te de mim.
Te amei a ponto de não mentir.
Não farei a fina,
Não farei a cama.
Não serei doce
Não te darei mole.
Não serei adulta
Não te darei certezas
Chorarei quantas vezes tiver vontade,
Trocarei teu mal humor por livros,
Sairei à noite, 
Comerei gordices,
Cederei a impulsos, 
Terei novos amigos, 
Tatuarei meu corpo,
Viajarei pelo mundo uma vez por ano,
Serei exatamente isso que não se compreende.
Para teu bem, livra-te de mim.
E a menos que queiras
Uma elegância honesta,
Sexo na madrugada, 
Pizza no café da manhã
Por do sol depois de um dia de trabalho, 
Bilhetes de amor escondidos no bolso, 
Ressacas memoráveis, 
Poemas imperceptíveis, 
Fotos impublicáveis,
Supresas indeléveis, 
Enfim,
Livra-te de mim.


sábado, 11 de julho de 2015

Turmalina

Negro céu no teu olhar

Em teus encantos abismo
Vigio, porque chega a noite
Fria e luzidia
E meu único caminho
Segue a ser, labirinto
Já que tua luz me aquece
Ilumina
Seduz 
E queima...
Prenúncio de temporais
Torrentes
Angústias, 
Ainda assim
Prazer na devoçao.
Crente que sou
Que viver sem medida 
É morrer de amor!!

("Psicografada" de G.Fauré)

Liga-me do Alasca



Clarão de neve branca
Tão lânguida, tão santa...
Ursos polares
Rotas estelares
Eu a vagar...
Vasta independência, 
Ausente população
És assim, e somos:
Dias inteiros, solares
Noites frias, intermináveis
Tempos que se distanciam
Climas, rimas
Fogo que queima, lento
Faca feita de vento!
Corta-me toda, tu.

(nunca estive no Alasca)


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Quebra

Gosto de gente quebrada,
Desconstruída
Mal-amada
Rescussitada.
Gente que se reinventou
assumiu riscos
se fodeu
se machucou
Gosto de gente imperfeita
Cicatrizada
Destemperada
Improvisada
Amassada
Gosto de gente decepcionada
Angustiada
Viciada
Depravada
Gosto de quem a vida já pisou
Maltratou
Magoou
Castigou 
Aprecio outras versões dos fatos
Outros verbos
Outras definições
Das mesmas conspirações.
Gosto de quem se parece comigo em tudo isso.

domingo, 5 de julho de 2015

Ambições

Vontade de ser quem sou, 
Vontade de ser ninguém que fui
Ninguém e a partir de hoje, alguém.
Alguém que saibas quem é
Ninguém que tenhas conhecido antes
Vontade de ser inédita, 
imperfeita e inacabada.
Qualquer coisa relacionada com a ausência de tempo e espaço.
Que tempo? Que espaço? 
Ahhh, sei muito sobre atividades delirantes
Alterações significativas da memória 
Desses instantes fugazes que me roubam de quem fui.
Vontade de nascer hoje
Como nasce uma vida já vivida?
Alguém, quem?
Eu. E não eu.
Um sopro de coragem em ser
Ser sem precisar estar.
Existir infinitamente noutro peito.
Ambições de pertencer à teu mundo
Sem deixar de pertencer ao mundo inteiro 
Difícil dizer de outro modo a não ser em pensamento
- porque, não o medo, a certeza em ambições de ser.
De súbito, episódios inteiros que não acontecem senão dentro,
em existências tão perfeitas!
Insano achar que não são reais
Tudo o que invento é mais real que eu.

sábado, 27 de junho de 2015

Tinto (a seco)

Eu bebi, 

Ele escorreu...
Escorreu-me pelos dedos, 
Foi a força, foi a fé, foi a dor...
Escorreu pela boca, 
Pelos poros, 
Pelos olhos.
Eu não, o sangue é que corria...
Galopava, fugia, me ardia.
Eu sim, ficava e derretia,
A descer, remoer, a verter... 
Esvaziei todas elas.
As garrafas, a alma, a vida.
Tanta coisa essa taça me trouxe, 
Tanto mais levou!
Quando ela veio, vieste...
Quando ela foi, me arrastou
Lentamente, me esvaio...
Tentando entender a razão,
Por que vens, como vais, 
Por que fico?