quinta-feira, 19 de junho de 2014

Comissão das Lágrimas (compêndio do impacto)






Comissão das Lágrimas

Espero não lhes ter sorrido – não sorri de certeza. Pergunto-me se as pessoas me importam e ignoro a resposta. Não aconselho ninguém a tomar amor aos animais que duram menos que a gente. Porque o esquecimento custa. Um transtorno no osso ao princípio, um transtorno em mim inteira hoje.

Se soubesses quanto pesa uma tarde!

Se tivesse espaço para invejar, invejava-o. Estou com as árvores, deixe-me. Jesus Cristo multiplicou pães e peixes sem necessidade de se atormentar com tabuadas.

Amontoando mais palavras na boca do que conseguia dizer. Pronunciei uma frase aqui e ali e acabou-se. Com um sorriso que não era sorriso – que complicado transmitir o que não tem a ver com factos, dá idéia de ser simples e não é, a língua atraiçoa-nos. De repente tão indefeso, tão gasto.

Que é da felicidade, queriducha? Com os olhos que temos no interior da cabeça... vazios de tudo o que não fosse incompreensão ou sofrimento.

Quantos anos tenho agora? E uma pilha, com muitos números quase a cair-lhe das mãos, talvez que um deles se perca. Estão todos aqui, senhor: os seus seis anos, os vinte, os cinquenta, os da tropa, o do casamento que é um retrato no armário, os do nascimento dos filhos, o da morte da mula, e o avô a chorar como não chorou pelos pais, os pais a gente não pagou por eles, mas uma mula tão cara, melhor pra conversar que família, visto que os animais respondem.

Com a pergunta não cá fora, no interior da cara, e não uma pergunta, a demonstração de uma evidência. Procurando no passado um consolo que não existia por não existir futuro. Aldraba-me o melhor que puderes e talvez consigamos paz no interior da aldrabice e manter-nos a tona mesmo que nos afundemos, visto que nos afundamos, sem remédio, é uma questão de tempo. Um dia identico aos outros, mas mais curto.

Não tenho um coração, tenho um tambor que não pára. Não medem a vida, limitam-se a ocupá-la. Habituado à abundância do tempo – que interminável tudo – sem entender que a vida por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim.

A edificar um sorriso, a equilibrá-lo um momento até os lábios desistirem, exautos. Talvez tenha deixado de existir e tornei-me outra coisa, mas qual coisa. E apesar disso não penso mal de você, senhor, ainda para mais, as flores murcham, as penas secam e fica-se com a morte em casa, numa jarra, ou isso. Que esquisito algumas emoções resistirem, intactas, em mim.

Que me colorisse a importância...


Descanse que não reparam no que está a pensar nem notam.



(Minhas anotações de Comissão das Lágrimas, de Antônio Lobo Antunes, pq só ler é muito pouco, é preciso sentir - e guardar.)