quarta-feira, 17 de setembro de 2014

M de Mentira

Se a decência 
Me fizesse crer 
Que a sua descendência 
Havia de morrer, 
Não pensava
Me jogava
Te amarrava
E apelava 
Pro não senso
Dos padrões
E confusões
Que a sua existência me impõe
Do desespero
Ao derradeiro
Fio que escapa
Pelas mãos dos que cuidam
Da vida dos outros
Como se fosse sua
Como se sua fosse minha
A decisão de ter ou não ter
Coisa alguma por querer
Por verter 
Desses copos 
Desse corpo
Que bebo (bebi)
Pra embriagar a paciência
Pra impedir de agir
A indecência inerte
Que a distância
Traz.
Pra longe, 
Pra ontem
De vez em quando, 
Pra não saber como foi
E saber que foi assim
E que foi o fim.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Comissão das Lágrimas (compêndio do impacto)






Comissão das Lágrimas

Espero não lhes ter sorrido – não sorri de certeza. Pergunto-me se as pessoas me importam e ignoro a resposta. Não aconselho ninguém a tomar amor aos animais que duram menos que a gente. Porque o esquecimento custa. Um transtorno no osso ao princípio, um transtorno em mim inteira hoje.

Se soubesses quanto pesa uma tarde!

Se tivesse espaço para invejar, invejava-o. Estou com as árvores, deixe-me. Jesus Cristo multiplicou pães e peixes sem necessidade de se atormentar com tabuadas.

Amontoando mais palavras na boca do que conseguia dizer. Pronunciei uma frase aqui e ali e acabou-se. Com um sorriso que não era sorriso – que complicado transmitir o que não tem a ver com factos, dá idéia de ser simples e não é, a língua atraiçoa-nos. De repente tão indefeso, tão gasto.

Que é da felicidade, queriducha? Com os olhos que temos no interior da cabeça... vazios de tudo o que não fosse incompreensão ou sofrimento.

Quantos anos tenho agora? E uma pilha, com muitos números quase a cair-lhe das mãos, talvez que um deles se perca. Estão todos aqui, senhor: os seus seis anos, os vinte, os cinquenta, os da tropa, o do casamento que é um retrato no armário, os do nascimento dos filhos, o da morte da mula, e o avô a chorar como não chorou pelos pais, os pais a gente não pagou por eles, mas uma mula tão cara, melhor pra conversar que família, visto que os animais respondem.

Com a pergunta não cá fora, no interior da cara, e não uma pergunta, a demonstração de uma evidência. Procurando no passado um consolo que não existia por não existir futuro. Aldraba-me o melhor que puderes e talvez consigamos paz no interior da aldrabice e manter-nos a tona mesmo que nos afundemos, visto que nos afundamos, sem remédio, é uma questão de tempo. Um dia identico aos outros, mas mais curto.

Não tenho um coração, tenho um tambor que não pára. Não medem a vida, limitam-se a ocupá-la. Habituado à abundância do tempo – que interminável tudo – sem entender que a vida por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim.

A edificar um sorriso, a equilibrá-lo um momento até os lábios desistirem, exautos. Talvez tenha deixado de existir e tornei-me outra coisa, mas qual coisa. E apesar disso não penso mal de você, senhor, ainda para mais, as flores murcham, as penas secam e fica-se com a morte em casa, numa jarra, ou isso. Que esquisito algumas emoções resistirem, intactas, em mim.

Que me colorisse a importância...


Descanse que não reparam no que está a pensar nem notam.



(Minhas anotações de Comissão das Lágrimas, de Antônio Lobo Antunes, pq só ler é muito pouco, é preciso sentir - e guardar.)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cícero








Ahhh, se a gente soubesse como dói,

não amava mais ninguém.

Mas se dói porque tem que doer,

É porque deve ter alguma coisa a ver.

Se vai ficar, se vai passar,

Se vai amar, e se calhar,

Ahhh, se ela soubesse...

Que toda a gente ama,

Que toda a gente chora,

E que nem toda gente sente

Que o que muda em toda a gente


É só o jeito de amar.

 

(O outro Cícero também já disse que não nascemos só para nós mesmos.)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Além mar

 

Que provas a vida te deu de que tudo termina?

Entre tanto vai e vem, entre toda a pressa,

Entre tudo e o menos que nada,

É o ontem que acende o que hoje te ilumina!

 

Não vês que nada tem fim?

Tudo que ficou fica-te bem,

O não que virou sim,

Até aquele sonho de que te fizeste refém.

 

Oxalá que não te arrependas,

(E não deves!)

Esqueça o pranto, leva as prendas,

Solta sua carga num adeus suave...

 

Depois de tudo (escreve),

Olha o mar, esquece a dor,

Beija o vento de leve,

Porque só faz sentido esperar pelo melhor.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Nada será como antes de ontem

Eu achava que sabia tudo sobre o meu passado. Achava que tudo que lá estava, esteve tal como foi. Mas ao contrário do que eu acreditava, pensar no passado não resulta, mas não porque não se pode mudar nada, mas porque aquilo se pode mudar sempre! Toda vez que eu olho pra trás, e noto alguma coisa que eu não tinha notado antes, tudo muda! É como a tal teoria do caos e as borboletas e seja lá o que se chamam essas coisas de quem se mete a mexer com o tempo, com as causas e com as consequências... Eu olho, vejo uma coisa nova, e vira uma avalanche sobre os conceitos que eu tinha formado antes e pronto: seja bem-vinda nova crise. E não, ainda não se pode mudar o passado. Só mudam as espécies de arrependimentos.